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Em 1916 já se analisava o Futebol

Afrânio Peixoto era médico, politico, professor, escritor e historiador, nascido em 1876 escreveu uma análise sobre um jogo de futebol, que pelo conteúdo se tratava de um embate entre um time brasileiro e um europeu realizado em 1916 no Rio de Janeiro.

A análise transcrita abaixo foi a primeira que evidenciou aspectos psicológicos e comportamentais dos jogadores brasileiros. É curioso perceber que mesmo sendo feita em 1916, a análise é rica em conceitos do chamado Futebol Moderno.

Não há infelizmente neste profundo e culto país um só homem, de grandes ou pequenas responsabilidades, que não tenha um sorriso superior, de benévolo ceticismo, talvez até de piedade, para cogitações tão fúteis… 

“Sports”, distração de rapazes, atrativo de moças, uns a mostrarem formas de atletas, outras a exibirem os últimos figurinos… Divirtam-se…há de lhes aproveitar bastante.

Confesso que tenho o meu fraco por essas festas da força: a gente distrai-se e pensa, o que, às vezes, é instrutivo…

Lembra-me agora, por exemplo, a primeira vez que fui aqui a um campo de “foot-ball”. 

Povo garrido e entusiasta, a rebentar as arquibancadas, para assistir a um “match” de patrícios, desafiados por um “team” estrangeiro, que atravessara os mares para se bater conosco. 

A honra já era uma vitória; certo que a Europa, uma vez mais, como a canção popular, ia curvar-se ante o Brasil!

O jogo começou, com aplausos de animação e delicadeza, aos vencedores, aos vencidos, disposição muito mais amena que o julgamento final, em que há muita veemência e algum despeito, a mesclar entusiasmo.

Mas, começou, e os aplausos continuaram, apesar dos nossos não fazerem um ponto, embora, um por um, os estrangeiros nos “vasassem” o “goal”.

Ganharam? Que importa, ganhavam sem glória. Faziam “passes” sucessivos, cada um ocupado com a modesta posição que lhe cabia no concerto, estranho à assistência, sem contar por si, mas apenas consigo para os outros, para o “team”, por isso constantemente vencedor. A vitória era deles, não há dúvida, 4 a 0, mas era uma vitória a dividir por onze, como bilhetes de uma loteria: undécimos sorteados… 

Os nossos, não tinham bravura, contavam por si, e só consigo. Já na atitude, voltados para a assistência, quando podiam, lobrigavam sem dúvida nas mil cabeças curiosas, que os fitavam admiradas, uma cujos olhos brilhassem mais inquietos, denunciando um coração, mais apressado, como a insistir num voto de triunfo. Desempenhavam-se em posturas de atleta, sempre corretos e preocupados, até o momento da intervenção. Quando a bola vinha, um “shoot” elegante, que soltasse as asas à revoada dos aplausos, ou a perícia do jogo pessoal difícil, não obtido sempre, mas honroso para cada um, desses “driblings” em que a gente faz bonito, embora perca o “team”!

Quatro a zero…não valeram palmas, “poses”, olhos votivos, corações apressados, milagres do individualismo. .. perdemos. Os passes, o jogo conjugado, de todos para o grupo, a associação das parcelas, deram resultados. Procurássemos desculpas, melhor adestramento, treino continuado, talvez até uma falaz delicadeza aos hóspedes…não importa, tínhamos perdido. 

Com o “zum-zum” da multidão que se dispersava pelos portões abertos, vinha caindo a cinzenta melancolia da tarde. Por Paisandu afora, andei triste, à procura de razões.

Devia ser assim…Já o era, com os nossos antepassados; não os nossos avós, mas os donos desta terra que no-la deram com os seus defeitos, dela recebidos. Um calor exaustivo, que impede a aproximação, uma pequena caça que dispensa a colaboração, a tocaia atrás do pau, a solidão à beira do rio, educaram, através de séculos, os primeiros brasileiros, no individualismo daninho, em que cada um fila somente de si, e não pode, porque não tem em quem confiar.

Os latinos que para aqui vieram, seriam, como todos os latinos, desapegados uns dos outros, incapazes de cederem, na independência de cada um as quotas, que somadas dão a vantagem do povo, a vitória nacional.  

Os outros não…germanos – por instinto, anglo-saxônicos – por educação, são disciplinados…Um homem  não vale senão como fração da sociedade; um jogador não existe, mas apenas parcelas do “team”. E essa longa colaboração, na raça e no indivíduo, fazem constantemente o êxito final, de todas as suas empresas.

No “sport”, como na vida…

Vencem nela os que sabem vencer no outro. De um professor francês que lhes ia ensinar cultura latina, os rapazes de Harvard, a grande universidade americana, queriam saber, para avaliar de tal cultura, se os rapazes de Paris eram fortes no “football”. 

Um “trustes” bilionário declarava que só se convenceria da capacidade dos latinos para os negócios, no dia em que um “team” da Europa meridional vencesse os campeões de Yale.

Por quê?  Porque vencer no “football”, vencer nos “sports”, significa disciplina, cooperação, solidariedade eficaz. 

Tão eficaz assim? Lembrai-vos de um pequeno incidente na história do mundo.

Os cristãos primitivos, das mais baixas classes e mais humildes condições, perseguidos, martirizados, vilipendiados…venceram, finalmente, o mundo antigo, bravo e forte contra eles, pelo milagre da associação…

Não há quem rompa um feixe de varas, ainda quando, uma a uma, até crianças delas possam dar cabo.

O socialismo, a maior revolução econômica da história, está aprendendo e, talvez, domine a sociedade contemporânea, desprevenida e desagregada contra ele. 

Só isto. 

Ao “sport”, pois, que ensina disciplina moral e dá saúde à vida!

Quando cheguei à Beira Mar, estava decidido a voltar nos outros domingos; e não me tenho arrependido. Já não saio tão triste, como na primeira vez. E às vezes, exulto; entrevejo um Brasil de amanhã, mandando um “team” vitorioso a Yale ou a Harvard…”.

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